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Farelo despenca em Chicago, mas queda esconde alerta: demanda global cresce no mesmo ritmo da oferta
28/SET
Os preços do farelo de soja despencaram na Bolsa de Chicago nesta segunda-feira (28), liderando as perdas do complexo soja em um forte movimento de realização de lucros. As baixas passaram de 2%, se aproximaram dos 3% em algumas posições, porém, ocorrem em um mercado que vinha acumulando expressiva valorização nas últimas semanas e não elimina, segundo analistas ouvidos pelo Notícias Agrícolas, as preocupações com um balanço global mais apertado do derivado.
O movimento acontece depois de os fundos construírem uma posição comprada excepcionalmente grande no farelo nos últimos meses. Dados mais recentes da CFTC (Commodity Futures Trading Commission), referentes ao último 22 de setembro, mostram que o farelo vinha carregando cerca de 202.722 contratos comprados e apenas 11.635 vendidos, resultando em posição líquida comprada de 191.087 contratos. É justamente esse posicionamento que ajuda a explicar a intensidade da correção.
Em entrevista ao Notícias nesta segunda-feira, Eduardo Vanin, estrategista sênior de agricultura da Marex e analista da Agrinvest Commodities, explicou que o farelo se tornou o contrato mais sobrecomprado entre os componentes do complexo soja após a forte valorização das últimas semanas. “Foi o que mais caiu porque foi o que mais subiu”, resumiu Vanin.
O movimento anterior de alta ganhou força com os problemas enfrentados pela colheita norte-americana. Chuvas atrasaram os trabalhos principalmente em áreas do oeste do cinturão produtor, restringindo temporariamente a chegada de soja às esmagadoras e, consequentemente, a disponibilidade de farelo.
Como reflexo do cenário detalhado por Vanin, o especialista citou o comportamento dos prêmios pagos por esmagadoras em Iowa nas últimas semanas e a diferença que apresentaram. Para entregas imediatas, chegaram a ser oferecidos 40 cents por bushel acima de Chicago, enquanto para a entrega apenas um dia depois a referência passava para 20 cents negativos, marcando uma diferença de 60 cents em apenas 24 horas, refletindo a necessidade imediata de matéria-prima.
AVANÇO DA COLHEITA MUDA O CURTO PRAZO
A pressão sobre o farelo começa a diminuir à medida que as condições meteorológicas permitem a retomada da colheita norte-americana.
Com mais soja chegando às esmagadoras, aumenta a disponibilidade de matéria-prima para processamento e, consequentemente, a oferta de farelo. Esse movimento encontra justamente os fundos carregando uma posição comprada muito elevada, abrindo espaço para uma realização mais agressiva como a observada nesta segunda-feira.
A expectativa de avanço da colheita norte-americana também pesa sobre todo o complexo soja nesta segunda-feira. Os futuros da oleaginosa chegaram a registrar perdas superiores a 30 pontos em Chicago, enquanto milho e trigo também operavam no campo negativo. Na conclusão neste primeiro pregão da semana, não só o farelo fechou o dia com mais de 2% de baixa, como também soja em grão e o trigo.
A correção do farelo, portanto, encontra argumentos claros no curtíssimo prazo. O quadro de médio e longo prazo, entretanto, pode ser diferente.ESCE, MAe virá a matéria-prima necessária para manter esse ritmo? E a que preço?
ESMAGAMENTO CRESCE, MAS PRODUÇÃO DE SOJA NÃO ACOMPANHA
Ainda como explica Eduardo Vanin, há uma mudança importante no balanço mundial do farelo de soja que precisa ser considerado, já que o mercado caminha para uma temporada incomum, na qual o esmagamento global de soja cresce enquanto a produção mundial da oleaginosa não apresenta expansão equivalente. “Vai ser a primeira temporada em que o esmagamento de soja global cresce e a produção não”, explica.
Brasil e Estados Unidos vêm ampliando sua capacidade e ritmo de processamento, enquanto a disponibilidade da matéria-prima passa a ganhar importância crescente na formação do balanço.
No Brasil, esse processo já aparece nos números. A Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) elevou recentemente sua projeção para o esmagamento brasileiro de soja em 2026 para 63,5 milhões de toneladas, novo recorde e avanço de 8,2% sobre as 58,698 milhões de toneladas processadas em 2025. A produção brasileira de farelo é estimada em 48,9 milhões de toneladas, enquanto as exportações devem alcançar 25,3 milhões.
Somente até julho, o processamento brasileiro acumulava 33,6 milhões de toneladas, crescimento de 8,3% sobre o mesmo período do ano passado.
A expansão é importante porque parte relevante do crescimento do esmagamento brasileiro vem sendo estimulada pela demanda por óleo de soja, especialmente diante do avanço do biodiesel. Mas toda tonelada adicional de soja esmagada também coloca mais farelo no mercado, aumentando a necessidade de demanda doméstica ou internacional capaz de absorver esse produto.
A maior produção brasileira vem acompanhada justamente por um crescimento da presença do país no comércio internacional do derivado. Essa expansão acontece em um mercado no qual os fluxos tradicionais também passam por mudanças, ao mesmo tempo em que disponibilidade, origem e capacidade de entrega começam a ganhar importância crescente para os compradores.
Vanin avalia que, passada a realização provocada pelo avanço da colheita americana e pela liquidação das posições excessivamente compradas dos fundos, o mercado internacional ainda terá de lidar com uma oferta mundial de farelo que não necessariamente se torna confortável.
Além disso, a produção brasileira da nova safra ainda começa a ser construída. As chuvas seguem irregulares em importantes áreas produtoras do Centro-Oeste e Norte do país, enquanto o excesso de precipitações preocupa em partes do Sul. Vanin ressalta que ainda é cedo para caracterizar um problema de safra, mas afirma que as condições estão distantes da normalidade em algumas regiões.
Os números mais recentes do USDA, reportados em seu boletim mensal de oferta e demanda em meados de setembro, reforçam a importância de acompanhar não apenas o crescimento da produção de farelo, mas também a velocidade com que a demanda mundial absorve essa oferta.
No reporte, o departamento norte-americano estima a produção mundial de farelo de soja em 301,94 milhões de toneladas em 2026/27, crescimento de 3,1% frente aos 292,92 milhões estimados para 2025/26. O consumo, entretanto, apresenta praticamente o mesmo ritmo de expansão. O USDA projeta 297,57 milhões de toneladas, contra 288,71 milhões na temporada anterior, também um avanço próximo de 3,1%.
Com produção e demanda avançando praticamente lado a lado, os estoques finais mundiais apresentam crescimento bem mais modesto, passando de 19,27 milhões para apenas 19,65 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, aumenta a dependência dos fluxos internacionais. As exportações mundiais de farelo são projetadas em 89,44 milhões de toneladas, crescimento de cerca de 4,1% frente às 85,88 milhões previstas para 2025/26.
Brasil e Estados Unidos aparecem entre os responsáveis pela expansão da oferta. O USDA projeta a produção brasileira em 50,01 milhões de toneladas, contra 47,49 milhões na temporada anterior, enquanto as exportações devem crescer de 25,25 milhões para 27,10 milhões de toneladas. Nos Estados Unidos, a produção deverá avançar de 57,43 milhões para 59,69 milhões de toneladas, e as exportações podem saltar quase 11%, de 18,60 milhões para 20,59 milhões de toneladas.
Ainda assim, a Argentina, por sua vez, permanece como peça central do comércio mundial, com 29,60 milhões de toneladas de farelo previstas para exportação em 2026/27.
De toda forma, a queda desta segunda-feira pode dizer mais sobre o tamanho das posições dos fundos e a normalização da colheita americana do que sobre uma mudança estrutural no balanço mundial do farelo. No curto prazo, mais soja chegando às esmagadoras significa mais farelo disponível e espaço para retirada do prêmio construído nas últimas semanas.
Mais adiante, porém, o mercado terá de responder a outras duas questões: se o esmagamento mundial continuar crescendo sem expansão equivalente da produção de soja, de onde virá a matéria-prima necessária para manter esse ritmo? E a que preço?