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Trigo de baixa qualidade enfrenta descontos, e moinhos brasileiros buscam reposição na Argentina

21/OUT

Os problemas de qualidade da safra brasileira de trigo estão provocando mudanças nas negociações entre produtores, comerciantes e moinhos. Com maior diferença entre os padrões dos lotes disponíveis, a indústria tem avaliado individualmente as características do cereal, enquanto o trigo que não atende às especificações de moagem enfrenta descontos ou precisa encontrar destinos alternativos. Ao mesmo tempo, a CJ International Brasil já originou lotes da nova safra argentina para embarque em novembro, buscando atender à demanda por trigo de qualidade adequada à indústria. 

Segundo Douglas Araújo, líder do Negócio Trigo da CJ International Brasil, a menor disponibilidade de trigo nacional dentro das especificações exigidas por determinados moinhos tem ampliado a seletividade nas compras. Na avaliação comercial da empresa, os estoques de trigo argentino disponíveis nos portos de Paranaguá/PR, Rio Grande/RS e São Sebastião/SP já foram vendidos, e a reposição deverá depender dos embarques da nova safra argentina a partir do próximo mês. 

A CJ informou que já originou lotes destinados a Paranaguá, com embarques previstos para novembro, e trabalha também com volumes para Rio Grande e São Sebastião. Além do trigo comercial com 11,5% de proteína, a empresa identifica procura por trigo melhorador, com teor proteico entre 12% e 12,5%, e relata ter originado um lote com essas características para embarque no mesmo período. 

Essas operações representam negócios de originação e programação de embarques, não volumes já desembarcados no Brasil. Também não permitem, isoladamente, determinar uma mudança no ritmo total das importações brasileiras. 

Do ponto de vista da indústria, a preocupação está menos relacionada à disponibilidade global de trigo e mais aos custos de abastecimento. Em entrevista anterior ao Notícias Agrícolas, Rubens Barbosa, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), avaliou que o Brasil dispõe de alternativas de importação e não enfrenta risco de desabastecimento. Segundo ele, o desafio está na pressão dos custos sobre a rentabilidade dos moinhos. 

Qualidade define descontos e possibilidades de negociação 

Araújo explica que não existe uma tabela única de descontos para o trigo de qualidade inferior. O preço depende da combinação de fatores como peso hectolítrico (PH), Falling Number (FN), teor de proteína, características de panificação, possíveis contaminantes, volume negociado, localização e possibilidade de aproveitamento pela indústria. 

Referências indicativas de mercado apontam trigo Tipo 1 com PH 78 próximo de R$ 1.750 por tonelada CIF Curitiba. Para lotes com PH 75 e Falling Number de 200 segundos, há indicações em torno de R$ 1.500 por tonelada CIF, enquanto referências de trigo com PH 73 aparecem próximas de R$ 1.250 por tonelada. 

Esses valores não representam uma tabela oficial de descontos nem operações necessariamente realizadas sob as mesmas condições comerciais. Por isso, as diferenças entre eles não podem ser tratadas como uma redução fixa de preço aplicada ao produtor. 

Na avaliação do executivo, a mudança também não significa necessariamente que todo trigo de boa qualidade esteja recebendo um prêmio adicional. Em algumas situações, o cereal adequado à moagem permanece próximo ao preço de referência exigido para a reposição industrial, enquanto os lotes com restrições sofrem descontos mais acentuados. 

A dificuldade de encontrar trigo adequado às exigências industriais também aparece nas estimativas do Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR). Segundo a presidente da entidade, Paloma Venturelli, a produção da região Norte do estado é estimada em aproximadamente 750 mil toneladas nesta safra, das quais apenas 400 mil toneladas devem alcançar a classificação Tipo 1, adequada à panificação. No ciclo anterior, a região produziu cerca de 900 mil toneladas, com predominância desse padrão. 

O sindicato também aponta que a produção paranaense, estimada em 2,13 milhões de toneladas pelo Deral em setembro, permanece abaixo das necessidades de moagem do estado, de aproximadamente 3,85 milhões de toneladas por safra. A entidade avalia que a piora da qualidade e uma possível redução adicional da produção poderão ampliar a necessidade de abastecimento externo, reforçando a importância da seleção de lotes e da reposição de trigo pelos moinhos. 

A necessidade de aproveitar parte da produção disponível tem levado determinados moinhos a avaliar condições de compra mais flexíveis. Segundo Araújo, há compradores examinando lotes com Falling Number entre 100 e 200 segundos e PH entre 72 e 75, mesmo diante de referências usuais mais elevadas para algumas aplicações industriais. 

A aceitação, entretanto, depende dos demais resultados laboratoriais e da finalidade do trigo em cada unidade. O resultado é um mercado em que a classificação individual dos lotes ganha peso crescente na negociação, tanto para definir preços quanto para identificar quais compradores podem utilizar cada padrão de cereal. 

Trigo fora do padrão de moagem busca destinos alternativos 

Para lotes que não atendem às exigências de determinados moinhos, a alimentação animal e a exportação aparecem como alternativas comerciais. A possibilidade de venda, porém, continua condicionada à qualidade do produto e aos requisitos específicos de cada comprador. 

Araújo destaca que o trigo destinado à fabricação de rações precisa cumprir parâmetros contratuais e sanitários, incluindo limites para micotoxinas. Portanto, a presença de PH baixo ou outras restrições industriais não significa que o lote esteja automaticamente apto a esse mercado. 

Na alimentação animal, o trigo também disputa espaço com ingredientes como o milho. A competitividade depende dos preços relativos, da composição da ração, das características do produto e dos custos logísticos. 

A busca por outros destinos pode ampliar as possibilidades de comercialização do cereal efetivamente colhido, mas não elimina a perda de remuneração quando o trigo precisa ser direcionado a mercados que pagam menos do que a indústria de moagem. 

Nesse cenário, a segregação por qualidade e a identificação de compradores compatíveis com cada lote tornam-se importantes para reduzir dificuldades de comercialização. 

O problema já vinha sendo identificado nos levantamentos oficiais. No Paraná, o Departamento de Economia Rural (Deral) relatou que as condições climáticas durante a colheita comprometeram a qualidade de parte do trigo, com situações em que o produto ficou abaixo das exigências do mercado e a receita pode não ser suficiente para cobrir os custos da safra. 

Araújo também menciona preocupações no Rio Grande do Sul relacionadas à redução do peso hectolítrico e à possibilidade de germinação pré-colheita em áreas afetadas por condições desfavoráveis. 

Reposição argentina traz atenção à logística de novembro 

Enquanto a indústria brasileira busca adequar suas compras à disponibilidade e aos diferentes padrões do trigo nacional, a CJ International trabalha com o abastecimento pela Argentina. 

Além das operações já originadas para novembro, Araújo relata interesse por trigo com características superiores de panificação, incluindo lotes melhoradores com proteína entre 12% e 12,5%. 

O executivo também avalia que o trigo paraguaio disponível apresenta boa qualidade de panificação, representando outra possibilidade de abastecimento para determinados compradores. 

A programação de chegada do cereal argentino, entretanto, traz uma preocupação logística. Na avaliação de Araújo, uma eventual concentração de embarques de trigo e milho e de descargas de fertilizantes nos portos do Sul pode aumentar filas e custos das operações. 

O risco dependerá dos volumes efetivamente programados, das condições climáticas e da capacidade operacional dos terminais. Não há, nas informações apresentadas pela empresa, confirmação de que as operações de novembro já estejam provocando congestionamentos. 

Para os moinhos, a atenção estará voltada à disponibilidade de trigo compatível com suas necessidades e ao ritmo de reposição. Para os produtores brasileiros, o desafio será encontrar compradores que ofereçam o melhor aproveitamento possível para os diferentes padrões colhidos. 

Araújo considera que a atuação conjunta de cooperativas, comerciantes, tradings e indústrias ajuda a direcionar os lotes para mercados compatíveis com suas características, preservando alternativas de comercialização em uma safra marcada pela qualidade desigual. 

Essa reorganização, contudo, não elimina os efeitos econômicos da menor remuneração do trigo com restrições industriais. O resultado para cada produtor dependerá da qualidade efetiva de sua produção, dos preços obtidos, das alternativas de venda e dos custos envolvidos na operação.

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